A Prefeitura de Belo Horizonte começou a testar uma nova estratégia para tornar a cidade mais preparada para períodos de chuva intensa. Um projeto-piloto implantado na Bacia de Detenção Várzea da Palma 1, em Venda Nova, utiliza o conceito de “cidade-esponja”, que aposta em soluções naturais para aumentar a absorção da água da chuva, melhorar a drenagem urbana e contribuir para a prevenção de enchentes.
A iniciativa está sendo executada desde o início de agosto pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smobi). O projeto utiliza espécies vegetais capazes de auxiliar na filtragem da água, retenção de sedimentos, absorção de nutrientes e aumento da infiltração da água no solo.
Construída pela Prefeitura entre 2021 e 2023, na área do Córrego da Gameleira, a Bacia Várzea da Palma 1 integra a primeira etapa do programa Drenurbs.
A estrutura funciona como um grande reservatório durante temporais. Em períodos de chuva intensa, recebe e armazena grandes volumes de água, que são liberados gradualmente. O processo reduz a quantidade de água que chega de uma só vez ao sistema de drenagem e, consequentemente, contribui para diminuir o risco de enchentes.
Com o projeto-piloto, a Prefeitura pretende manter essa função e agregar benefícios ambientais, paisagísticos e sociais por meio das chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN).
Uma das principais intervenções será a utilização da fitorremediação, técnica que emprega plantas para auxiliar na recuperação e melhoria das condições ambientais.
Estão sendo construídos três setores alagados, que juntos ocuparão aproximadamente 1,7 mil metros quadrados. Neles serão plantadas espécies características de ambientes úmidos, como lírio-do-brejo, papiro-do-brejo, ingá-do-brejo, além de outras plantas aquáticas e emergentes indicadas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
Estudos hidrológicos realizados na bacia apontaram condições favoráveis para a implantação do projeto. O local mantém água durante todo o ano e possui profundidade entre 1,25 metro e 2 metros, favorecendo a formação de áreas brejosas.
Segundo a diretora de Bacias da Smobi, Ana Paula Fernandes, a experiência foi inspirada em projetos de infraestrutura verde desenvolvidos em cidades como Fortaleza, no Ceará, e Niterói, no Rio de Janeiro.
A proposta é fazer com que uma estrutura originalmente destinada à drenagem também possa melhorar a qualidade da água, ampliar a biodiversidade, contribuir para a redução das ilhas de calor e, futuramente, oferecer um novo espaço de convivência à população, sem comprometer sua função de controle das cheias.
Um dos problemas enfrentados na Bacia Várzea da Palma é o descarte clandestino de entulho e resíduos da construção civil, além da degradação do cercamento existente.
Dados dos serviços de limpeza realizados pela Subsecretaria de Zeladoria Urbana (Suzurb) apontam que 97% do material retirado da bacia corresponde a resíduos sólidos.
Em apenas um ano, aproximadamente 3 mil metros cúbicos de detritos são recolhidos no local. Além de provocar mau cheiro e degradação ambiental, o acúmulo de resíduos pode reduzir a capacidade hidráulica da estrutura e prejudicar seu funcionamento durante períodos de chuva.
Mesmo diante do descarte irregular, a bacia possui uma biodiversidade significativa. A área úmida atrai aves como garças, colhereiros, maritacas e bem-te-vis. No entorno também existem ipês, oitis, árvores frutíferas e diferentes espécies ornamentais.
A expectativa é que a implantação dos novos ambientes alagados favoreça a recuperação ambiental, crie novos habitats para a fauna e aumente a eficiência do sistema de drenagem.
Em uma segunda etapa, a área deverá receber decks de madeira, mobiliário urbano e espaços de contemplação, ampliando o uso do local pela população.
O conceito de cidade-esponja busca fazer com que o ambiente urbano tenha maior capacidade de absorver, armazenar e liberar lentamente a água da chuva, em vez de direcioná-la rapidamente para galerias, córregos e rios.
Áreas verdes, jardins de chuva, parques inundáveis, terrenos permeáveis e áreas alagadas são algumas das soluções utilizadas. Além de auxiliar no enfrentamento de alagamentos e enchentes, essas estruturas podem contribuir para a recuperação ambiental, melhoria da qualidade da água e redução do calor nas cidades.